
Ao ritmo dos desenvolvimentos, sei lá eu qual será a realidade no momento em que o leitor ou leitora estiver a ler esta crónica… Mas recuemos então uma semana e pico, ao turbilhão de notícias e contra-informação que de repente começaram a rebentar na coligação que nos governa. Ficámos primeiro a saber que o poderoso Vítor Gaspar se demitia. Bomba suficiente para trazer interrogações sobre o futuro, sobretudo quanto à tão estimada estabilidade exigida pelos “mercados”. Horas depois, vimos a saber que o ministro não só se demite como já tinha apresentado essa demissão há muitos meses, tendo, pelos vistos, o primeiro-ministro pedido para ele ir permanecendo, até, pelos vistos, se tornar insustentável. Olhando para trás, temos então vários momentos-chave para o País, contando com igual número de conferências de imprensa ou presenças no Parlamento, em que tivemos o ministro mais poderoso do Governo a falar e a responder e a anunciar mais isto e aquilo… quando já não queria estar ali. Quando já não acreditava no que dizia, ou, pelo menos, quando já não tinha vigor para defender medidas que, como se não bastasse, eram contestadas com barulho crescente nas ruas ou nos comentários televisivos. Pergunta-se: porquê e para quê se alongou a agonia de Gaspar? Bom, sai então Gaspar, e pensa o povo que a sua saída é a admissão do falhanço de tantas medidas duras, que até poderiam parecer bem-intencionadas, ou que ficavam bem no papel (no mundo real é outra coisa), mas que se revelaram infrutíferas. Porque cada uma surgia como o sacrifício necessário para depois surgir a luz ao fundo do túnel… e ainda hoje estamos à espera. Sair Gaspar é então mudar? Pelos vistos, não, porque a escolha de Passos Coelho é uma mera continuidade. Bom, se é uma continuidade, nada mais natural que a reacção de Paulo Portas, que deverá ter batido palmas durante alguns poucos minutos, até perceber que o PSD apostava em mais do mesmo. E é aqui que não percebo porque tantos terão acreditado que Passos Coelho foi totalmente apanhado de surpresa pela demissão de Portas. A posição de Portas era mais do que conhecida. O temperamento intempestivo também. Não era a primeira ou segunda vez que a sua posição parecia desprezada pelo primeiro-ministro. Surpresa porque se demitiu? E de maneira a ser notícia poucos minutos antes de a nova ministra tomar posse? Só quem não tenha acompanhado a carreira de Portas. Seguiu-se a espera, a especulação. A Passos Coelho nada mais resta do que demitir-se às oito da noite, em directo para todo o País… Também aqui, só quem não conheça minimamente Passos Coelho, ou não tenha estado atento aos sinais que foi dando nos últimos dois anos. Apostei desde logo que não se demitiria, desde logo por duas razões muito simples de entender. A primeira, porque isso seria engrandecer a figura de Portas, mostrar ao País que ele era a rocha que segurava um governo inteiro. Segundo, porque me parece que, independentemente do que chamam teimosia ou ambição política, Passos Coelho está genuinamente convencido de que a sagrada estabilidade é, nesta altura, a única defesa contra a excitação voraz dos “mercados”, que ficam muito nervosos à mínima tremideira. É certo que é igualmente genuína a dúvida de saber se se preocupa com o País ou com a sua própria carreira, mas quero crer que só atirará a toalha ao chão no limite dos limites do insustentável. E é curioso perceber, nos dias seguintes, que não aceitar a demissão de Portas e acalmar os ânimos não foi, afinal, ingenuidade com fracasso garantido. Vamos sabendo pouco do que realmente se passa nos bastidores, mas a verdade é que depois de um dia que trazia hecatombe e choques em cadeia, com as bolsas a mergulhar no negro, e os juros da dívida a escalarem os céus, logo no dia seguinte o horizonte se apaziguou. O que vem aí? Essa é a questão a que ninguém sabe responder, e há muitos anos que é assim, nem mesmo os credenciados e definitivos analistas, economistas e comentadores, todos eles ultrapassados e desmentidos, em diversas ocasiões, pelos novos tempos que não se parecem com nada do que já vivemos. E nisso tem muita razão um dos comentadores, Luís Marques Mendes, que estranha ver as lógicas partidárias continuarem as suas agendas, reacções e discursos exactamente iguais ao que sempre fizeram. Já não é tempo disso. E provavelmente não será tão cedo.