
Por imperativos dos prazos desta revista, aviso que, no momento em que escrevo, ainda não é conhecida a posição oficial do Presidente da República ao acordo que esteve para haver e não houve. Mas, bem vistas as coisas, não interfere muito com o que quero dizer. E bem vistas as coisas, o Presidente deveria saber que estava a pedir o que dificilmente aconteceria. Porquê esta certeza, minha e de tantos portugueses, sobre isso é que importa reflectir. Desde logo, reparar que Cavaco Silva pretendeu sacudir a água da responsabilidade para cima dos partidos, que lha devolveram rapidamente. Se bem se recorda, o Presidente pediu um acordo, a que chamou, com peso, salvação nacional. Disse que o pedia para que os partidos que chamaram a troika (o que inclui, em primeiro lugar, o PS) dessem aos portugueses uma lição de patriotismo. Ou seja, por uma vez na vida, colocarem os interesses da Nação acima da quezília partidária. Recordou Cavaco Silva que o pedido excepcional nasce de circunstâncias extraordinárias, que todos queremos ver pelas costas rapidamente, e com a menor dor possível. Isto é um facto, e daqueles que não deveriam merecer discussão. Quem é o maior culpado? Interessa, de facto, mas de momento deveria estar em segundo plano. Porque está visto que vamos continuar a assistir à lengalenga de sempre, a oposição culpa o Governo, o Governo diz que teve de tomar medidas duras porque a oposição outrora Governo deixou o País de pantanas, blá-blá. Não muda uma vírgula em Portugal, e tudo se passa com a previsibilidade de um relógio suíço. Repare que digo oposição e Governo, e não PSD e PS, e isto é importante para a reflexão. Porque é infelizmente irrelevante de quem estamos a falar, tantos foram os comportamentos semelhantes dos partidos que desde o 25 de abril partilham os comandos da Nação. Como me foi sempre igual criticar adeptos portistas, benfiquistas ou sportinguistas. Quando se trata de comportamentos animalescos de hooligans, são todos absolutamente iguais. Quis o destino que neste momento tão particular e tão grave, esteja o PSD no Governo e o PS na oposição. Interessa pouco para o caso. O PSD tem certamente a sua (enorme) quota-parte de culpa no momento em que nos encontramos, sobretudo quando se limita a parecer daqueles alunos que apenas tiram apontamentos mas nunca reflectem pela própria cabeça, incapaz de lembrar (que se saiba) aos nossos credores implacáveis que a sua fórmula cega de cortes e austeridade não está a resultar, como é notório. Mas, dito isto, convém lembrar que o garrote é de tal forma apertado que os nervosinhos mercados se agitam por tudo e por nada. Nesta altura do campeonato, interessa pouco que os mercados já rocem o ridículo da sofreguidão, sempre muito excitados com instabilidades, sejam pequenas ou de facto grandes. É assim que hoje funciona o mundo, e não há nada a fazer. Ou seja, ou temos por cá um partido que tem a força de mudar o mundo, ou tem de perceber que temos de nos adaptar, para não morrermos pelo caminho. É aqui que entra a oposição a quem o Presidente pediu compreensão e ajuda. No caso, é o PS, mas penso que seria a mesmíssima coisa com o PSD. No grande momento da decisão, na altura do “que faço agora”, Seguro não escolheu entrar para a História de uma crise nacional, mas sim ceder aos que, dentro do partido, lhe dizem que nem pensar em ceder a negociações e acordos com o inimigo. Deverá ficar, para os tempos futuros, apenas como mais um líder de um partido. Quanto ao resto, rezemos para que o mau não se transforme em insuportável.