
1 Mariah Carey, Beyoncé, Cristina Aguilera, Alicia Keys, e algumas outras… Supõe que acabo de enumerar apenas uma parte das mulheres que me fazem suspirar? Não. Fazem-me ponderar cortar os pulsos. Pendurar-me pelo pescoço num pinheiro alto. Começar a correr sem destino, com as mãos nas orelhas. Não posso fazer nada, é uma questão física. O meu corpo não está preparado. Nada contra as senhoras. É certo que Carey e Aguilera são um monumento vivo à pirosada mais retinta, mas acho graça, em patamares distintos, à volúpia curvilínea de Beyoncé e à classe suave de Alicia Keys. Não consigo é ouvi-las. Aquilo podia ser bom, mas é mau.
Antes que alguém levante a mão e me repreenda com “gostos não se discutem”, permita-me elucidá-lo com a minha posição: discutem-se, sim senhor. Aliás, que seria da civilização sem gostos que se discutem, que se apuram, que se transformam? Aceito que há uma imensidão de zona cinzenta pelo meio, mas Mozart é sempre bom logo aos primeiros acordes, e o que é mau também se revela em segundos. As raparigas de que falo, obviamente, são da imensa zona cinzenta. Por menos que eu e mais meia dúzia não gostemos, há milhões que vibram e pedem mais. E de que gostam sobretudo, estes fãs? Quase sempre da “potência da voz”. Pois. E com toda a razão.
Acontece que os meus ouvidos esperam de uma música uma coisa diferente de exibicionismo, e as vozes que nos tentam impressionar por si, antes de tudo o mais, fazem-me sempre lembrar uma disputa de culturistas oleados, a insuflarem músculos em frente ao espelho. Comece a música como começar (e algumas vêm de mansinho, a enganar), já se sabe que é só contar os segundos até as meninas desatarem a berrar. Dentro do tom, sim, sem desafinar, sim (e isso de facto impressiona), mas apenas a gritar desalmadamente, como se fossem apenas um pavão que de repente estende as penas e nos deixa espantados com a profusão de cores e latitude das asas. Podia acontecer numa ou outra música, mas acontece em todas. Mas pode suceder (sem ironia) que seja algo no meu ouvido interno que não se dá bem com aquela frequência.
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2 Adoro ler algumas “críticas” de televisão. Salvo raríssimas excepções que já referi mais do que uma vez, acho piada as tentativas de fazer passar por “olhar crítico e distanciado” as mais óbvias ligações e jogos de agenda. Numa revista de televisão do “Correio da Manhã”, o crítico assina duas ou três breves frases sobre cinco ou seis programas diferentes, que pretendem ser sinteticamente lapidares. Desta vez, causou-lhe estranheza e suscitou escárnio um “Jornal da Noite”. Porque “publicitámos” três novos programas da SIC.
Poder-se-ia discutir de que forma o fizemos, e se a relevância jornalística foi de alguma forma afectada, mas enfim… Condescendo que tenha pensado que tinha por onde pegar. Já acho mais estranho que ache estranho que no intervalo publicitário (sim, no intervalo com o qual o “Jornal” nada tem a ver) a SIC tenha promovido uma data de vezes as suas novas novelas. Constatação espantosa: o crítico não entende, e muito menos aceita, que uma estação promova os seus próprios programas no seu próprio espaço de antena. Ou seja, está tudo maluco por esse mundo fora. Logo de seguida, para quem pudesse ainda duvidar porque escreve o que escreve onde escreve, diz-nos que o “jornalismo enxuto da CMTV já obrigou a SIC, TVI e RTP a saírem mais à rua, porque (acrescenta) “já se tinham desabituado do jornalismo normal” (ou seja, o do CMTV).
Que a missão seja denegrir os canais da concorrência e louvar o “Correio da Manhã”, entende-se. Já entendo menos ou nada porque se escandaliza tanto com os mecanismos perversos (e nunca vistos) da autopromoção. Seria bom, aliás, dar uma vista de olhos na última página da mesmíssima revista. Chama-se “As escolhas de”, e é uma página tão velha como o princípio do mundo. Alguém, presumivelmente famoso ou reconhecido, aponta as suas escolhas de programas de televisão. Neste caso, tem direito a quatro escolhas. Neste caso, as quatro escolhas são (oh surpresa) quatro programas do CMTV. Tudo bem, as pessoas têm direito à sua opinião. E as escolhas são de quem? De uma apresentadora de um programa do CMTV. Ai, se o crítico das autopromoções sabe disto…