
Haverá coisa mais louvável do que ser amigo do seu amigo? Dito assim, é sempre coisa boa, positiva. Mas torna–se mais complicado quando pensamos nas sucessivas complicações que o primeiro-ministro tem de enfrentar, em período que já seria conturbado sem trapalhadas a atrapalhar, passe a redundância. Assim de repente, recorde-se que tivemos a ministra das Finanças debaixo de fogo, e quando ainda era apenas secretária de Estado. Quando Vítor Gaspar finalmente saiu, Maria Luís Albuquerque foi a escolhida, quando tudo aconselhava Passos Coelho a ler os sinais que entretanto se iam acumulando nos jornais e comentários. Em vez de proteger Albuquerque (e proteger-se a si próprio), fê-la avançar para “a boca do lobo”, para o lugar mais quente de um governo sobre brasas.
Obviamente que as críticas subiram de tom, obviamente que as intervenções dúbias da ministra em contratos SWAP fizeram as delícias da argumentação da oposição. Mas, contra tudo e todos, literalmente, Passos Coelho aguentou-a. Mais: manteve-a, sabendo que o seu grande opositor era o seu mais próximo colega de coligação. Mais: “obrigou” Paulo Portas a entender-se com Maria Luís, sentando-os lado a lado nas difíceis cadeiras das negociações directas com a troika. Amizade? Teimosia? A convicção de quem sabe que é a mulher certa no lugar certo, embora a muitos outros possa parecer que não? Penso que nunca o saberemos na totalidade, porque Passos Coelho raramente treme, em público, com estas questões.
Na sua voz pausada, reafirma e reafirma confianças, dando a entender que pode a oposição ou os comentadores gritarem o que quiserem, que nada o fará corrigir a rota. E assume que a rota é sua, logo a responsabilidade também será, para o bem e para o mal. Como se costuma dizer, a coisa foi passando. Vieram as autárquicas, e as atenções viraram-se para outro lado, talvez por simples desgaste. Mas de escolha em escolha, eis que o substituto da pasta deixada em aberto com a ascensão de Portas traz com ele novas polémicas agarradas, mal explicadas, a que se vão somando outras.
Rui Machete está agora no centro de um furacão, e dá à oposição motivo, tempo e oportunidade para centrar em si todos os males que procuram apontar ao Governo. Informações confusas, esclarecimentos dúbios, hesitações, histórias mal contadas, pormenores que não batem certo, correcções de afirmações com informações ainda mais polémicas, enquanto a comunicação social, alertada pelo sabro do escândalo, vai descobrindo mais rabos de palha. A tudo, mas mesmo tudo, por mais escandaloso que possa parecer ou soar, Passos Coelho vai respondendo da mesma forma de sempre: não demite, não põe em causa, reafirma confiança vezes sem conta. Mais uma vez, a pergunta. É Passos Coelho daqueles amigos que é raro encontrar na vida? Incondicional, corajoso, cúmplice? Ou, levado também ele a não gostar do que vai lendo e ouvindo, prefere, ainda assim, manter-se firme na sua escolha, apenas porque foi a sua escolha e lhe pareceria dar parte de fraco se tomasse alguma das decisões que muitos exigem? Uma vez mais, aposto, não o viremos a saber.
O primeiro-ministro que (goste-se ou não) tem mantido mão firme no leme que nos afirma ser o melhor para o País no longo prazo. Se o quer manter, convirá talvez ir medindo a verdadeira dimensão dos solavancos que a sua amizade, ou teimoisa, ou lá o que for, lhe pode trazer. Por outras palavras, medir se vale a pena vir a cair porque segurou figuras e problemas que o arrastaram consigo.