
Entre as tiradas previsíveis dos comentadores de futebol na TV, vem sempre o inevitável “claro que isto daqui parece fácil”. Segue-se normalmente a uma pequena crítica a um erro de marcação, ou a um posicionamento táctico num canto. Logo depois, esclarecem-nos que aquilo lá em baixo é muito mais difícil do que nos parece a nós, treinadores de bancada. Têm razão… e não têm. Vejamos: obviamente que se fosse fácil éramos todos craques a ganhar milhões, mas há que pensar também noutra perspectiva. Lembro-me, por exemplo, quando jogava nos juvenis do Leixões, em campos pelados, coxas eternamente rasgadas por arranhões, pisos de areia e pedras soltas, bolas que eram mais ou menos redondas e pesavam 20 kg, a juntar às toneladas das nossas chuteiras, se se encharcavam em jogo à chuva. E mesmo assim, ai de mim se falhava dois centros seguidos, ou um único canto; tinha de ouvir os gritos do treinador, e arriscava-me a ir para o banco.
Agora, veja-se o futebol de primeira, hoje em dia: uma relva que parece uma mesa de bilhar, equipamentos que pesam dois gramas e aquecem no inverno e refrescam no verão, chuteiras com alta tecnologia assim e assado, leves como peúgas e feitas à medida para cada craque. Depois, tudo o que os rodeia: massagistas, fisioterapeutas, psicólogos, banhos turcos, jacuzzis. Sem fazerem mais nada na vida. A ganharem milhões, fazendo o que sonhavam fazer em crianças. Estádios confortáveis, cheios de luz e ambiente, multidões enlouquecidas, a chamarem pelos seus nomes, e o símbolo do País ao peito. Primeira pergunta: como é que nestas condições se falha um canto?! Já não falo de um passe, de um remate, ou mesmo de um centro, a bola pode vir assim e assado, ter um adversário mesmo ali, mas… um canto? E no entanto, falham. E é para mim a imagem mais absoluta da displicência e da falta de visão e orgulho. Sim, refiro-me sobretudo à miséria que a Selecção nos apresentou no jogo com Israel. E que nos apresenta a cada jogo que é precedido de uma conferência de imprensa onde nos garantem que vão dar tudo por tudo. E depois é o que todos vemos.
Miúdos na força incomparável dos 20 e tal anos (daqui a uns anos vão compreender o que digo), que entram para um jogo que precisam absolutamente de ganhar, rodeados do carinho incondicional de milhares de compatriotas, muitos deles a fazerem acrobacias financeiras para irem vê-los e aplaudi-los, e depois… aquilo. Aquele espectáculo lamentável de falta de vontade, de falta de brio, de falta de orgulho, de falta de garra. E não me venham depois dizer que “ah, se não tivéssemos o azar daquela asneira do Rui Patrício”… Sim, a asneira é grande, e encaixa em tudo o resto, no resto do medo, da falta de convicção, da mania de fazer continhas de cabeça em vez de jogar à bola. Mas bem podia acontecer a asneira se a Selecção já tivesse arrumado o jogo com dois ou três golos, como era sua obrigação. Sim, obrigação. Não se pode andar de peito feito a dizer que estamos entre os melhores do mundo, para depois andarmos constantemente cheios de “azares” mas prometendo que da próxima é que é. Tive de escrever esta crónica antes do último jogo, com o Luxemburgo, mas é irrelevante: já sabemos que teremos de jogar um play-off dificílimo. E aí a Selecção deve-nos tudo. Sim, tudo. Não é só pedinchar o nosso apoio. É também respeitarem a devoção dos compatriotas, verem-nos como nos deviam ver, a sofrer e a torcer, cheios de orgulho. E deixarem a pele em campo, mesmo que percam.