
Não me cansarei, lamento, de regressar as vezes que forem necessárias aos temas que considero mais importantes. Para mim, os mais graves e angustiantes. Hoje, com grande pena, volto ao que chamamos violência doméstica, que é, aliás, uma expressão que deveria ser rapidamente modificada, por me parecer demasiado delicodoce para o horror que representa. Podem fazer-se mil campanhas, já aqui o disse. Ainda não vi uma, uma única, que me pareça eficaz. São todas como a expressão violência doméstica: pobrezinhas, fraquinhas, com actores ou modelos mais interessados em saber se estão giros do que em retratar o horror. E os “criativos” destas campanhas também são de uma ingenuidade que nem faz cócegas. Há, depois, um outro enorme problema, que não sei como se resolve mas que convinha, com urgência, provocar reuniões sérias de “grupos de trabalho de especialistas”, já que se fazem por tudo e mais alguma coisa. Estou pessimista, e cada vez mais. Porque a questão das agressões bárbaras de homens sobre mulheres nasce no berço. Cria-se desde cedo, e infelizmente cresce ao longo da vida dos jovens. Sim, bem sei que há também violência de mulheres sobre homens, mas sejamos sérios. Valem pouco nas estatísticas, e não se pode continuar a alimentar esse discurso que não leva a lado nenhum. Como é patético, de cada vez que alguém escreve sobre os direitos dos animais, ser insultado como comentários básicos como “e então os direitos das pessoas não interessam?”. Há ainda gente que não entende que quem defende os animais não exclui outras protecções, mas enfim. A questão é grave porque é uma questão de educação. E não vejo aqui nada de bom, nem tenho aquela esperança que alguns vão tendo, de que as próximas gerações já não serão assim, blá–blá-blá. Dou dois exemplos. Primeiro, os desenvolvimentos do caso daquela mulher sequestrada e agredida pelo companheiro dias a fio, que só não morreu porque deram com eles a tempo. Há agora a suspeita de que o homem terá tido a “ajuda” do filho de 18 anos. A ser verdade, teremos aqui mais um agressor em formação. E tantos e tantos mais, basta ver os números crescentes de agressões e outras violências no namoro entre jovens. Em segundo lugar, uma cena que presenciei, parado num semáforo. Um pouco à minha frente, houve um pequeno toque entre dois carros. Daqueles que se percebe logo que não foi nada demais, e custa a entender de quem foi a culpa, pareceu-me que de ambos. Acontece que os dois condutores saem das viaturas, para espreitar os estragos. Um deles era um homem. Quando viu que do outro caro saía uma mulher desatou numa série de insultos inenarráveis, com vaca e p### à cabeça. Um espectáculo degradante da cobardia mais enlouquecida. Um pequeno grande pormenor: este homem levava duas crianças dentro do carro, julgo que seriam os filhos, em idades de escola primária, um rapaz e uma menina. O que este grande educador explicou aos filhos, com a sua atitude, foi que os rapazes crescem a insultar e agredir as mulheres, e à menina explicou que ela deve esperar, ao longo da vida, ser tratada assim. Isto tem de ter um fim. Pelo menos, um princípio do fim, que esse não deve chegar no nosso tempo de vida.
