
Esta primeira afirmação é importante, aconteça o que acontecer ao longo da crónica: gosto de Paulo Bento. Respeito os seus modos directos, a franqueza, não o conhecendo bem, adivinho um espírito batalhador e, sobretudo, trabalhador. Tenho-o na conta de um homem honesto e simples. Vem isto dos seus tempos de jogador ou dos seus primeiros passos como técnico. Sou dos que ficaram contentes com a sua chamada para seleccionador. Ora bem, dito isto, acho que ele esteve muito mal na conferência de imprensa após o jogo com a Holanda. Permitam-me que utilize um lugar-comum, mas é para isto que eles servem: para ilustrar, de uma penada, uma imagem que se aplica a inúmeras situações. E na conferência de imprensa a questão foi muito simples. O homem que tinha demonstrado nervos de aço e grandeza na hora da derrota, não teve a mesma desejável postura em celebração de vitória. Bem sei que cada jogo traz uma carga de nervos que só podemos imaginar, mas os nossos representantes, se são eles que lá estão no lugar, têm de estar preparados para isso. E Bento, nitidamente, deixou-se ir abaixo. Cedeu ao rancor que andava a acumular por saber de críticas que vêm desde os jogos de qualificação, cresceram com as duas derrotas nos jogos de preparação e subiram ainda mais após a derrota com a Alemanha. Quanto a esta estreia, Paulo Bento está coberto de razão: é bom não esquecer que Portugal perdeu com uma das melhores equipas, não só da Europa como do mundo, candidato eterno a levantar o troféu. Ou seja, uma derrota que não envergonha ninguém. Mas se soube encaixar os relatos que lhe chegavam de algumas críticas, desde comentadores a cronistas, e, sobretudo, de outros treinadores (o que compreendo que irritem mais que as outras…), desta vez cedeu ao embalo da euforia para, em vez de sorrir, cerrar os dentes e começar a disparar o que ainda não tinha dito. E deu-nos a imagem de uma equipa que parece estar a querer ganhar não aos adversários no campo mas que joga contra outros portugueses, os “descrentes”, os “cépticos”, os “críticos”. Alguns jogadores já tinham deixado esta ideia após o renascimento contra a Dinamarca, dizendo que esperavam que o resultado “calasse muita gente e convencesse os críticos” e etc… Voltaram a demonstrar a incapacidade de gerir emoções e, sobretudo, aceitar críticas, quando, após a vitória sobre a Holanda, não compareceram na zona mista das breves entrevistas, aparentemente em “solidariedade com Cristiano Ronaldo”. Estava mais que visto que o tom do seleccionador não podia ser outro. Em momento de vitória, pouco ou nada de alegria, tudo amargura, disparos, dentes cerrados, tensão, voz tremida a ameaçar. É uma pena. E é um risco. Uma pena porque Paulo Bento e os jogadores não vêem que se insurgem contra a “típica maneira portuguesa de estar” com uma atitude que é, também ela… uma típica maneira portuguesa se estar. Sim, deve ser enervante ouvir sempre os grandes treinadores de bancada, cheios de palpites e crítica fácil, cheios de certezas que se fossem eles faziam assim ou assado. Mas a Selecção, do treinador aos jogadores, não percebe que seria muito mais desarmante e digno responder com um sorriso altivo e condescendente do que se deixar entrar no jogo português do bate-boca, do agora dizes tu, agora respondo eu. Uma pena por isto. E um risco, dizia eu, porque Paulo Bento esquece-se que, no imprevisível mundo do futebol, tudo pode mudar de um dia para o outro, e pode acontecer que a Selecção volte rapidamente aos baixos depois destes dois jogos em alta. Merecida alta. Esperemos que assim continue e, apesar de tudo, continuo a preferir que a Selecção ganhe, e venha depois, cheia de raiva, dizer–nos que “é para nos calar a boca”, do que perca. Continua a ser-me difícil perceber porque falha, tantas vezes, nos nossos desportistas, uma verdadeira dimensão de têmpera psicológica. Que não é apenas, lamento, ter capacidade de estar “concentradíssimos” para o encontro. É também, e cada vez mais, essa capacidade de saber que a alta competição não é só o jogo mas todo o circo que a rodeia. Mas que poderíamos, ou deveríamos, ter a habilidade e educação de concentrar as nossas energias no que interessa e gerir o resto do circo com elevação. Apesar de nos terem “ameaçado” que querem ganhar para nos calar, quem sabe talvez para nos fazer um manguito rancoroso, apesar disso, desejo que a Selecção elimine a República Checa e vá por aí adiante, quem sabe, quem sabe…